O dia em que mudei de faculdade

tranquei o curso

Se tem uma coisa complicada na vida é aquele dia em que você passa do segundo para o terceiro ano do colegial. Se você lembra dessa passagem como “tranquila”, queria muito saber da sua história, porque apesar de realmente ser “apenas uma virada de ano”, é no terceiro colegial que começa aquela pressão monstruosa de “que faculdade e curso vou prestar no fim do ano”?

É como se fosse uma virada de chave. Ao entrar na sala, logo na primeira aula do terceiro colegial, é essa pergunta que te fazem. Praticamente o ano inteiro é um árduo esforço do colégio para te ensinar tudo o que vai cair no vestibular porque você TEM QUE passar. Claro, a escola quer fazer cartazes e informativos podendo dizer que todos os seus alunos saíram do terceiro ano direto para a faculdade. Então é seu DEVER prestar todos os vestibulares do mundo e fazer o favor de entrar em uma faculdade pública/estadual. Porque, obviamente, se você não conseguir, você não se esforçou o suficiente ou não é inteligente o suficiente.

Do outro lado, sua família. Um monte de gente que te ama e te compreende, né! Vão te dar todo o suporte do mundo e dizer que “está tudo bem”. Então… não. Sua família te coloca pressão tanto quanto (ou até mais que) seu colégio. Você tem que seguir a profissão dos seus pais ou fazer “engenharia, medicina, advocacia”, caso contrário, você é a ovelha negra da família, a decepção de todos. E não adianta só essa questão do curso. Se não for uma faculdade pública/estadual, também! E aqui entram todas aquelas chantagens de “se você passar na USP, te dou um carro 0km!”.

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É um ano bizarro. Você larga todas as outras atividades da sua vida, inclusive a social, para estudar coisas que você continuará sem entender e nunca vai usar pra nada na sua vida. Paralelo a isso, se você – incompetente – ainda não sabe que curso quer fazer, ainda tem que fazer zilhões de “testes vocacionais” furados e tomar uma decisão.

Sim, aos 17 anos você tem que tomar a decisão que vai reger se não a sua vida inteira, boa parte dela.

Nunca tive o “sonho” de fazer o mesmo que meus pais. Afinal, minha mãe trabalha com financeiro e meu pai nem diploma tem. Quando era mais nova poderia jurar que seria bióloga, adorava os bichos e a natureza. Mas, nesse universo, também iria me deparar com bichos desconhecidos, talvez até machucados. Não tenho emocional pra isso. Psicologia? Não tenho emocional pra ouvir diariamente vários pacientes chateados com suas vidas. Meu teste vocacional disse “oceanografia”, e eu disse a ele “mas, oi? quê?”. Desacreditei dos testes e decidi: fisioterapia. Eu poderia ajudar pessoas! Aquilo era mágico.

Prestei todos os vestibulares que me ensinaram que eu deveria prestar. USP, Unicamp, Unifesp, Unesp, isso sem contar o ENEM… Também prestei aqueles de faculdade particular como PUC, Mackenzie, Anhembi… Depois de me sentir incapacitada e a pessoa mais burra do mundo por não ter passado em nenhuma das públicas/estaduais, me matriculei no Mackenzie.

O primeiro ano foi aquela maravilha. Várias coisas novas, a sensação de já ser adulta, conhecer várias pessoas diferentes, a autonomia da faculdade… Amava as matérias, tudo ainda me encantava, tinha até decidido seguir em pediatria ou dermatofuncional, mas com o passar dos semestres minha ficha ia caindo ainda mais: não quero trabalhar em hospitais e ver pessoas passando mal ou sofrendo dores definitivamente não era algo que eu queria sequer pra minha vida, então imagina profissionalmente. Cursei 3 anos… e, com dor no coração, tranquei. Sim, mais da metade. Valia a pena ficar mais 2 anos e terminar o curso? Não sei, e acredito que nunca saberei. O curso e a faculdade eram incríveis, mas me questionei sobre a futura profissão.

mudei de faculdade

Quando vi, aos 21 anos tinha voltado ao meu estado de 18. Desesperada para encontrar o curso que iria fazer na faculdade. E pior, mesmo aos 21 ainda não tinha a menor noção. Fui para o cursinho. Frustrada, definitivamente parecia que eu estava com a minha vida atrasada em 3 anos. Fiz “apenas” meio ano de cursinho, mas durante todo esse período me questionei não só “o que quero cursar”, mas sim “como quero que seja minha vida quando me formar”. Não tinha essa consciência aos 17. A faculdade não é apenas sobre “qual curso fazer”, mas sim “como me vejo depois da faculdade”.

Com mais consciência de mim, dos meus gostos, das minhas preferências e principalmente, do que não queria para minha vida, foi que finalmente decidi o curso que faria na faculdade: Publicidade. Na publicidade posso desenvolver minha criatividade, trabalhar com vários segmentos diferentes (dependendo do cliente), entender o próximo (consumidor), mexer com fotografia, e até fazer trabalhos voluntários ajudando as pessoas. Prestei Publicidade. Passei. Hoje estou mais feliz e tenho mais certeza de que apesar de todas as dificuldades até aqui, fiz a escolha certa. Tive a sorte de contar com o apoio dos meus pais na minha decisão, mas confesso que todo esse percurso não foi fácil.

Se posso deixar alguma dica aqui… Invista seu tempo no auto conhecimento. Não pense na faculdade como “um momento”, o curso que você escolher pode ditar boa parte da sua vida. Se achar que não está satisfeito, que não está se encontrando no curso que você escolheu, não é vergonha trancar e buscar algo que te faça melhor.