zero três, doze e quinze.

2003

Uma historia que alguns conhecem, outros desconfiam, mas que a maioria não faz ideia.

 

Ela chegou um pouco perdida sem conhecer ninguém naquele lugar, mas com aquela ansiedade insuportável de ver o que o mundo iria apresentar de novo para ela.

 

Meio insegura, tentou ganhar liberdade do portão afora e, por lá, ele acabou chamando sua atenção apesar dos demais. Mas, que pena, ele nem sempre estava por lá, talvez até por isso tenha sido diferente. Surpresa, um dia percebeu que ele parecia a olhar de longe. Achando que poderia ser um engano ou uma peça de sua criativa imaginação, ela fez alguns testes aparecendo em lugares e momentos diferentes para ver se ele continuava olhando. Intrigantemente ele permanecia a seguindo com os olhos. Mal sabiam os dois, mas foi o suficiente.
Sem muito o que fazer naquele lugar e sem poder andar por onde quisesse, a diversão dela era se exibir e se divertir com as reações causadas. Ninguém poderia imaginar as consequências dessa brincadeira.

 

Um dia, finalmente, eles foram apresentados apesar de já saberem quase tudo sobre o outro. A noite nem precisou chegar para eles adicionarem um novo contato na agenda do celular. O final de semana acabou e cada um seguiu sua rotina… ou tentou. Na verdade, eles criaram uma nova rotina em que, entre um suspiro e outro, trocavam mensagens, todos os dias, todas as semanas… A partir daí começou a ficar difícil distinguir “ela” e “ele”, a história passou a ser contada como “eles”.

 

A cada mensagem o coração batia mais forte, isso porque não diziam nada de mais, contavam apenas sobre dia e coisas engraçadas aleatoriamente, que tinham graça apenas para eles, pois na verdade não tinham humor algum, a graça estava no remetente. Algumas coisas foram ditas a mais… ou na medida necessária, depende do dia e de quem conta a história. Mas, como em qualquer história, independente de contexto ou personagem, sempre é mais fácil falar do que agir. Apesar de continuarem se encontrando e sabendo o que cada um tinha escrito no dia anterior, nenhum dos dois tentava dizer as mesmas coisas pessoalmente.

 

De dias e semanas, eles somaram anos nessa troca de mensagens, palpitações, carinhos, sonhos bons, lembranças e declarações escritas. E mesmo que um ficasse dias sem dar notícias, quando o outro resolvia mandar uma mensagem a resposta sempre vinha, e era como que se não tivesse passado nenhum dia sem conversarem.  Até que depois disso tudo, um dia,  entre um click e outro, eles se beijaram pela primeira vez. Um tanto quanto escondidos no meio de todo mundo, mas que parecia que o tempo tinha congelado e só eles poderiam se mover.

 

A noite estava acabando e, mesmo sem querer, eles teriam que deixar o outro dia chegar. Como quem não acredita no que aconteceu, ela duvidou que a noite anterior foi real e quis se certificar. Ele sempre soube o que dizer, e disse. Mesmo com o sol brilhando fora do telhado, eles se beijaram mais uma vez. Ela tinha mania de não acreditar muito nas coisas, mas não poderia mais duvidar do que aconteceu e nem esquecer as coisas que ouviu.

 

Sofás, pracinhas, casas abandonadas, o mato todo daquele lugar, um gole ou outro, alguns dias de sol, mas principalmente de neblinas, mais noites que dias…

 

Acontece que mesmo depois de todos esses anos, de todas essas coisas ditas, de tudo o que sentiam e de todas as outras coisas mais, eles pareciam não estar preparados. Talvez mais ele do que ela, e a história voltou a ser contada em duas unidades.

 

Idas, vindas, sumiços, mensagens, músicas, calmaria, euforia, um turbilhão de coisas e sentimentos… ele começou a namorar. Não com ela. E como poderia ser com ela? Como poderia não ser? Tão próximo do momento em que eles ainda poderiam ser “eles”, ele optou por manter a história como “ele” e “ela”. A distância, que já era física, se tornou um abismo entre ele e ela.

 

No começo parecia que seria uma história bonita, não é? Não se preocupe, esse pensamento é unânime. Até ela achou que seria uma história bonita apesar de nunca a definir na categoria de romance.

 

Apesar dele optar por outra pessoa, as mensagens não pararam imediatamente, mas estavam cada vez mais espaçadas. Se a história não era mais sobre os dois, as mensagens muito menos. Apareceram algumas músicas depois, mas o bom ficou guardado na memória e tudo virou uma grande lembrança. Até os pequenos desentendimentos eram engraçados e as brigas pareciam bestas agora. As mensagens só apareciam quando a saudade apertava de mais. “As”, não… “a” mensagem, pois era difícil que um respondesse o outro. Ele costuma a culpar por não ter dado certo entre eles, mas isso é só porque ele esquece que ele foi o primeiro a desistir de lutar.. ou é o que ele prefere acreditar. Ela não o contradiz, porque sabe que fingir que ele não tem culpa o ajuda a dormir tranquilo.

 

Focada em seguir em frente, ela também começou a namorar. Não ele. E assim cada um seguiu seu caminho… ele terminou o namoro nesse meio tempo, mas eles permaneceram distantes. Ela acreditava que estava melhor assim…até se encontrarem de novo depois de alguns anos. Os dois tinham mudado muito, não só fisicamente, como em atitudes, jeitos e pensamentos. Tentaram ser amigos, conversar da vida, dar risada de alguma coisa que passou na TV… Ingênuo foi aquele que acreditou que seria possível eles serem amigos nessa história. Não depois de tudo o que falaram, não depois de tudo que fizeram, não depois de tudo o que aconteceu.

 

Existe alguma coisa entre eles, que não tem nome, mas tem uma força incrível. Eles até conseguem ficar sem se ver, sem se falar, mas nunca sem sentir saudades. Se estão no mesmo lugar, até conseguem não ficar juntos, mas nunca de deixar de se olhar, de querer. Eles lutam para não dar o braço a torcer.  Tanto ela, quanto ele. Uma besteira. Mas não podem ficar muito perto um do outro… pois o juízo passa longe e eles deslizam no inútil foco de se manterem centrados.